FIQUEI COM FOME
Saímos do show para a noite deliciosamente morna.
O bar Amarelinho agitava a noite na Cinelândia e um ou outro morador de rua vagava devagar em frente ao Theatro Municipal.
O Rio estava tranquilo, talvez de ressaca do calor escaldante de 49º daquela tarde.
Descemos para a estação de metrô com as pessoas que ainda comentavam o excelente show do Léo Gandelman no Teatro Rival da Petrobrás. Um passeio pelo jazz/mpb de qualidade que ouvi desde a minha juventude. A música, como nenhuma outra arte, me envolve, me toca, emociona, me faz viajar pelas notas e pelos acordes. Como alguém consegue arranjar tão harmoniosa e perfeitamente um bando de notas e fazer acordes e melodias que tocam no fundo do coração e da alma? É um mistério, a composição.
Saímos do metrô na nossa estação em Copacabana, eu meio tonto do embalo da música e do trem.
Fome! Estou com fome, declara Marina ao passar por uma carrocinha de cachorro quente. Mas não esse aí que está cheirando azedo.
Na ausência da “nossa” carrocinha na esquina da Santa Clara, decidimos fazer o “banquete” em casa. Eu iria ao supermercado comprar tudo o necessário. Apresso o passo, pois já são quase 22h e talvez já esteja fechando. Passando pela Pão&Cia tento comprar um pão mas um funcionário mal humorado fecha a cortina de ferro na minha cara.
Corro para o supermercado Zona Sul na outra quadra e acontece o mesmo, apenas com um funcionário mais simpático: os caixas já estão fechados, lamenta ele.
Dou meia volta e passo por um morador de rua esparramado em um amplo lençol de casal.
Já fechou diz ele.
Fiquei com fome, resmungo eu.
Não, não, amigo! E vira-se para pegar um saco plástico ao seu lado. Pegue aqui, ó, é pão.
Agradeço e vou adiante meio apressado tentando me livrar daquela inesperada e meio incômoda oferta.
É pão, eu lhe dou aqui, ainda insiste ele. Não precisa, obrigado, digo eu, hipocritamente fugindo daquele contato no meio da noite. Talvez devesse ter aceitado a generosidade de um ser humano que estava ali, muitas vezes tão desprezado.
Viro a esquina em busca de outra carrocinha na beira da praia pensando que pelo menos uma parte da humanidade tem salvação.

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